Todo dia ela o observava e imaginava uma vida inteira ao seu lado. Mas tudo que conseguia viver eram uns segundos de sonho.
Todo dia ele a olhava de longe e se perguntava o porquê daqueles olhos sempre baixos. Mas só pensava nisso nos instantes em que a via.
Um dia se viram por mais tempo. E ele enfim reparou que os olhos dela procuravam os dele. Mas só durou o suficiente para que ela sentisse medo e fugisse.
Todos os dias ele se perguntava por que ela desaparecera.
Todos os dias ela o bisbilhotava de longe e imaginava se seus medos tinham fundamento.
Um dia ele se virou e a viu. E pela primeira vez, não se perguntava nada. Só imaginava uma vida inteira ao lado dela. E tudo que ela conseguia fazer era aceitar o medo.
Todo dia eles se redescobriam. E tudo que podiam fazer era procurar, dia após dia, um pedaço da pessoa que um dia conheceram.
Um dia mudaram tanto que não se reconheciam.
Ela só conseguia imaginar o tempo que ficou. E ele só se perguntava o que mudou entre eles.
E seus caminhos se separaram...
Ainda que ela só imaginasse uma vida com ele. E ele só tivesse uma com ela.
23 de fev. de 2011
15 de fev. de 2011
Cor
Não sei do seu rosto
Todo
Não sei do seu cabelo
Solto
Não sei do seu futuro
Nosso
Quando tudo que consigo ver
É a cor que seus olhos vão ser
Ao se abrirem devagar pra mim
Não sei quando isso vai acontecer
Se vai
Não sei como vou reagir
Mas vou
Quando tudo que consigo pensar
É a cor do teu olho esquerdo
Um pouco mais azulado
A me olhar de esguelha
Querendo brincar
Todo
Não sei do seu cabelo
Solto
Não sei do seu futuro
Nosso
Quando tudo que consigo ver
É a cor que seus olhos vão ser
Ao se abrirem devagar pra mim
Não sei quando isso vai acontecer
Se vai
Não sei como vou reagir
Mas vou
Quando tudo que consigo pensar
É a cor do teu olho esquerdo
Um pouco mais azulado
A me olhar de esguelha
Querendo brincar
2 de fev. de 2011
Outono
E quando a filha lhe perguntou por que algumas mudanças doíam tanto
Ela respondeu que eram como folhas caindo pra dar lugar a outras
Nuvens se dissipando pro sol aparecer
Amigo sumindo pra outro surgir
O outono que chega de mansinho
esperando que algum dia
ele seja mais importante que o verão
"Não deixe que a dor seja melhor que a felicidade" ela lhe disse.
"Porque o sol nunca brilha tão lindamente no outono. Mas só existem folhas verdes se as mais velhas caírem no outono."
Ela respondeu que eram como folhas caindo pra dar lugar a outras
Nuvens se dissipando pro sol aparecer
Amigo sumindo pra outro surgir
O outono que chega de mansinho
esperando que algum dia
ele seja mais importante que o verão
"Não deixe que a dor seja melhor que a felicidade" ela lhe disse.
"Porque o sol nunca brilha tão lindamente no outono. Mas só existem folhas verdes se as mais velhas caírem no outono."
31 de out. de 2010
Devaneio 1
Hoje derrubei uma casquinha de sorvete na rua.
Quem limpava a rua já estava estressado e brigou com o chefe por ter que limpar a rua em frente à loja dele. O chefe ficou com raiva, e não deu a ele as férias no tempo que havia prometido. Então o varredor teve que limpar por mais duas semanas a calçada dali. Sorte pra uma menina que passava uma semana depois da minha casquinha ter caído, porque ela deixou de escorregar no óleo que um mecânico derramara no dia anterior, e o varredor limpara. A menina não caiu e pôde ir pra aula sem se atrasar. Ainda bem, porque ela tinha um teste surpresa naquele dia e não passaria de ano se não o fizesse. Ao chegar em casa, ela contou que fizera o teste e passaria de ano. O pai planejou a viagem de férias e a mãe cozinhou naquele dia. Pena que era camarão e o irmão mais novo tinha alergia, sem saber. Foram parar no hospital e ficou tudo bem. Ainda bem que ele descobrira em casa a alergia. Se viajasse ia comer camarão num lugar isolado e não conseguiria encontrar ajuda. O médico de plantão voltou para a sua casa mais tarde por causa do menino e evitou bater o carro num lugar onde bateria se tivesse saído 10 minutos mais cedo. Por ele ter saído mais tarde, o médico que o substituiria teve mais 10 minutos de sono. Isso evitou que ele errasse o diagnóstico de uma menina que chegara. Ela era filha da moça que me vendeu a casquinha. Se eu não tivesse comprado um sorvete, ela não teria dinheiro para levar a filha ao hospital. Ninguém pode dizer que a minha casquinha não é importante. Ou que eu não sou importante. Ou que qualquer coisa nessa vida não é importante. Se a filha dela não tivesse sido diagnosticada corretamente, ela deixaria de vender sorvete. E eu não poderia imaginar, hoje, tudo o que a minha casquinha no chão pode ter causado ao mundo.
Quem limpava a rua já estava estressado e brigou com o chefe por ter que limpar a rua em frente à loja dele. O chefe ficou com raiva, e não deu a ele as férias no tempo que havia prometido. Então o varredor teve que limpar por mais duas semanas a calçada dali. Sorte pra uma menina que passava uma semana depois da minha casquinha ter caído, porque ela deixou de escorregar no óleo que um mecânico derramara no dia anterior, e o varredor limpara. A menina não caiu e pôde ir pra aula sem se atrasar. Ainda bem, porque ela tinha um teste surpresa naquele dia e não passaria de ano se não o fizesse. Ao chegar em casa, ela contou que fizera o teste e passaria de ano. O pai planejou a viagem de férias e a mãe cozinhou naquele dia. Pena que era camarão e o irmão mais novo tinha alergia, sem saber. Foram parar no hospital e ficou tudo bem. Ainda bem que ele descobrira em casa a alergia. Se viajasse ia comer camarão num lugar isolado e não conseguiria encontrar ajuda. O médico de plantão voltou para a sua casa mais tarde por causa do menino e evitou bater o carro num lugar onde bateria se tivesse saído 10 minutos mais cedo. Por ele ter saído mais tarde, o médico que o substituiria teve mais 10 minutos de sono. Isso evitou que ele errasse o diagnóstico de uma menina que chegara. Ela era filha da moça que me vendeu a casquinha. Se eu não tivesse comprado um sorvete, ela não teria dinheiro para levar a filha ao hospital. Ninguém pode dizer que a minha casquinha não é importante. Ou que eu não sou importante. Ou que qualquer coisa nessa vida não é importante. Se a filha dela não tivesse sido diagnosticada corretamente, ela deixaria de vender sorvete. E eu não poderia imaginar, hoje, tudo o que a minha casquinha no chão pode ter causado ao mundo.
25 de out. de 2010
Domingo
Daqui dava pra ver a janela dele.
Ele de costas, sentado no sofá. E uma TV pequena ligada, chiando bastante.
Era meio calvo e chovia um pouco. Começava a escurecer.
E enquanto os comerciais chegavam eu pensava que nunca havia visto alguém mais sozinho.
Ele de costas, sentado no sofá. E uma TV pequena ligada, chiando bastante.
Era meio calvo e chovia um pouco. Começava a escurecer.
E enquanto os comerciais chegavam eu pensava que nunca havia visto alguém mais sozinho.
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