20 de jan. de 2014

Pra perguntar

Ela descobriu que era amor
Quando não se perguntou nenhuma vez se era certo
Se ia dar certo
Se ela podia fazer algo pra dar certo

Quando não existia "e se"
E nem espaço pra pensar se ia durar
Se ia ser ele
Se ia ser pra sempre

Ela descobriu que era amor toda vez que acordava com ele
Que comia com ele
Que ria com ele
E tudo era tão fácil
Que só podia ser amor

1 de jan. de 2014

Armário nosso de cada dia

Quanto tempo que tinha demorado
Pra ele não ligar de não ligar de volta sem vontade
Pra ele não dar beijo sem amor
Pra ele ir embora sem dizer tchau
Pra ele se aceitar como era, cada vontade, cada pensamento

Ah, quantas vezes ele tinha ido sem querer
E rido sem achar graça
Quantas vezes ele tinha sorrido meio fingido
E chorado de madrugada

Quanto tempo ele tinha demorado
Pra dizer não quando o coração apertava
Pra voltar quando não queria ir
Pra dizer oi pra aquela moça bonita

Ah, quantas vezes ele fez sem perceber
Aquela dança mentirosa
Quantas vezes ele foi só porque tinha que ir
E ficou só porque tinha que ficar

Como foi libertador aquele dia
Que ele fez o que deu na telha
Chocou todo mundo
E nunca foi mais feliz na vida

10 de dez. de 2013

Cabimento

Como que podia caber tanto amor
Na roupa pra lavar
Na cama pra arrumar
Na louça por fazer
Na preguiça das manhãs
No beijo de adeus

8 de dez. de 2013

Mediano

Cada dia perdido era um dia ganho
Naquela lista interminável de dias inúteis
Que ela acumulava enquanto sonhava
Com a vida perdida que era vida ganha
Naquela lista de vidas que só se vive uma
Até parar as listas
Até parar os sonhos
Até parar de se parar
E se permitir, talvez
Perder os ganhos
E ganhar as perdas
As perdas nos atos inacabados
Nos amores ignorados
Na comida mal feita
No dinheiro mal gasto

26 de out. de 2013

Pro Pagamento

Alguém apareceu, deu um oi.
Chegou ali, colocou um passado em cima da mesa que nem um bloco de concreto, tacteável, visível. Mostrou como esculpir aquele bloco. Disse que dava pra mudar o material, a finalidade, aumentar a resistência dele. E no final aquele bloco ia ser um eu melhor, pronto pra ser esculpido pelo meu próximo eu do futuro. Pra ver se no final ele vira uma obra daquelas que servem por si só.
E foi embora assim, sem cara nem nome, sem cobrança nem expectativa. Como se o universo realmente sempre tivesse uma forma de se pagar. Uma vez na vida todo mundo vira ajudante sem cara, uma vez na vida todo mundo precisa ser puxado assim, involuntariamente, aleatoriamente.