12 de jun. de 2009

Televisão

Todos tentam controlar
A hora de acordar, a hora de dormir
Quando sair, quando chegar
Quem ter ou não ter
A vida dos outros e a própria
Mas o mais incrível é que não há controle!
Não sabemos se vamos acordar ou poder dormir
Não prevemos se poderemos sair ou chegar
Ninguém pertence a ninguém
Vida nossa e de todo o mundo
É emaranhado imprevisível
Filme sem final, música sem início
Todos tentam controlar
O próprio controle pela vida
Mas é carro desgovernado
Água em peneira
A vida vem e vai, pega e leva
Não é minha nem sua
Não adianta tentar controlar
Aquilo que controla a nós
Vida é controle-remoto
Do preguiçoso destino meu
Muda, canal, muda!
Nem isso posso mudar
O controle foge à minha posse
Vida é incomparável, livre
Liberdade minha

11 de jun. de 2009

Sobre

Mudo muda.
Não quero que ninguém saiba o que sinto.
Ajeito a mobília, sento-me no sofá empoeirado.
Choro baixinho, discretamente.
Queria tanto mudar o mundo!
E não mudo nem meu modo de me mudar.
Enxugo as lágrimas calmamente. Gosto de senti-las descendo pelo meu rosto, quentes.
Mudo tudo de lugar novamente.
Meu mundo é meu modo de mudar.
Se mudo algo de lugar, sinto esvaziar a mente.
Queria tanto me esvaziar...
Jogar fora os pensamentos, cuspir as palavras.
Cansei de ser muda, de mudar sem mudar e de ter um modo tão estranho de ser e estar.
Ajeito a cortina, perfeitamente.
É como se tirasse mais um peso das costas.
Puxo o tapete rapidamente, sinto alívio no meu estômago, sempre retorcendo de dor.
Termino tudo. E não terminei nada. Sinto o estômago retorcer, a cabeça arder, as costas doerem. As lágrimas ressurgem. Mas dessa vez, sequer as enxugo.
Sento-me no meu tapete arrumado, arranho minhas pernas. Algo ali tem que fugir da perfeição... Algo tem que ser errado, diferente. Esse algo sou eu. Atrapalho a sincronia perfeita da minha própria vida.
Bagunço os cabelos e vou até o espelho mais próximo. Vejo o caos nos meus olhos, reflexo da mente.
Minha pele está vermelha e molhada. Entro no banheiro organizado, lavo o rosto. Gosto de sentir a água gelada na minha pele quente.
Deito-me no chão de lá. Não gosto de sentir frio naquele azulejo. Castigo-me. Minha pele aquece o piso. Sinto-me confortável.
Gosto de sentir a mudança após a crise.

8 de jun. de 2009

A Menina que Criou a Terra

Ela vivia sempre trancafiada. Era filha dos Deuses, dona da Verdade Eterna. Tinha aqueles olhos tristes, sempre se destacando, não importava onde. Seus cabelos eram tão longos que podiam tocar o chão e o céu, o céu e o inferno. E tocavam.
Não podia deixar o castelo, não podia falar com ninguém exceto os moradores de lá, que eram apenas escravos. Ela se sentia uma escrava também.
Um dia um dos escravos deixou-lhe um presente em segredo. Chamava-se Terra. Era como uma casa de bonecas que ela podia controlar. Ele a disse que poderia fazer qualquer coisa ali. Habitantes, paisagens, animais, comida. Era apenas pintar e jogar o papel dentro da esfera que era a Terra. Seria o segredo deles. Ninguém poderia saber de sua existência.
A Terra tinha uma abertura para os papéis e uma lupa mágica, que deixava a menina ver cada cantinho do lugar. A menina, então, se tornou a guardadora da Terra. Criou animais e pessoas, lugares e mares inacreditáveis. Quis fazer o melhor para os seus habitantes. Criou pequenas árvores que davam frutos e fez o vento para refrescá-los do sol que fizera para aquecê-los.
A cada dia a menina fazia pinturas diferentes para o que ela chamou de céu. Ela queria que as pessoinhas fossem mais felizes que ela. Fazia pinturas tão lindas, tão delicadas e profundas, para que as pessoas pudessem ver que havia alguém cuidando delas ali. E elas não viam.
A menina via pessoas chorando, matando, roubando. Não entendia. O que fizera de errado? Passou a fazer mais coisas para alegrá-las, então.
Criou as cachoeiras, as nuvens, os sabores. Decidiu que tudo precisava de um sabor, um cheiro e uma cor. Deixou tudo mais doce, mais cheiroso e colorido, mas as pessoas continuavam infelizes!
Para se sentir feliz, ela precisava deixar as suas pessoas felizes. Um dia chorou pela primeira vez, e na Terra fez chover. Ela resolveu olhar pela lupa de novo. Viu crianças correndo na chuva, casais se beijando, as plantinhas crescendo. A menina então percebeu que o que faz a felicidade é a infelicidade. Só assim cada um valoriza o que tem.
Ela guardou a lupa e se deitou na caminha estreita. Ela era infeliz por estar presa, mas era a pessoa mais feliz por ter a Terra. Naquele dia criou o arco-íris.
O arco-íris era a mágoa que foi embora, a lágrima que foi secada, a briga que terminara. Coloriu o arco-íris com todas as suas cores favoritas.
Guardou a Terra que era seu tesouro e desejou que todos tivessem um tesouro como ela tinha. Antes que pudesse criar esse tesouro para todos, percebeu que eles já o tinham. Era um abraço, um beijo, um coração. Era ser aquecido por algo mais que o sol. Era ter algo que fizesse a mágoa ir embora e o arco-íris reaparecer. Eles tinham uns aos outros, e ela tinha a eles. Era mais que um tesouro.

6 de jun. de 2009

A Arte de Ganhar em Último

Tento e falho, desisto e perco.
Tentativa boba, tentativa insossa.
Tentar é perder, não tentar não é ganhar.
Finjo que tento, finge que acredita.
Tentativa ilusória...
Tento te enganar, tenta me acreditar.
Tentativa monótona.
Tento sem tentar, falho sem falhar.
Perco sem tentar.
Tentativa desperdiçada.
Cansei de tentar tentar...
Tentativas falsas!
Se tento é por tentar.
Tentativas inúteis.
Desperdicei tentando!
Prefiro não tentar.Fazer o que se gosto só de ganhar...

5 de jun. de 2009

Janela

Abre e fecha
Tudo.
Abro e fecho meus olhos.
Abro e fecho. Minha mente, meus deveres, meu dia.
Abro e fecho. Minhas lembranças e meus temores.
Fecho e abro. Meu coração, minhas dúvidas, meus remorsos.
Abro para o amor, fecho para a razão. Fecho para a razão e não abro para o amor.
Endurece-me a alma, amar. Fecha-me a alma. De que adianta abrir o coração e fechá-la?
Fecho o coração, abro a alma. Deixo tudo livre, exceto o mais importante.
Abro para alguém, fecho para alguéns. Direitos livres: fecho para todos.
Fecho a cara, fecho os olhos, fecho a mim mesma.
Enclausurada numa concha. Abro uma fenda.
Abro e vejo a mim, fecho e enxergo a mim.
Abre e fecha.
Tudo.
Abro e fecho meus livros;
Abro e fecho meus textos;
Abro e fecho minha vida
Uma vez só.